• 26 de Maio de 2026

No Dia da África, Papa Leão XIV pede perdão pelo papel da Igreja na escravidão

No Dia da África, Papa Leão XIV pede perdão pelo papel da Igreja na escravidão

O Papa Leão XIV fez nesta segunda-feira, 25 de maio, um pedido histórico de perdão pelo papel da Santa Sé na legitimação da escravidão e pela demora da Igreja Católica em condenar de forma explícita esse passado. A declaração foi feita em sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas — “Humanidade Magnífica” —, divulgada no Dia da África.

No documento, o pontífice classificou o envolvimento da Igreja com a escravidão como uma “ferida na memória cristã” e reconheceu que antigos posicionamentos e documentos eclesiais contribuíram para autorizar ou justificar a submissão e a escravização de povos considerados “infiéis” por soberanos europeus.

Embora outros Papas já tenham pedido desculpas pelo envolvimento de cristãos no tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, o pronunciamento de Leão XIV se diferencia por reconhecer de forma mais direta o papel de antigos pontífices e da própria Santa Sé nesse processo histórico.

A escolha da data ampliou o simbolismo do gesto. Celebrado em 25 de maio, o Dia da África remete à luta dos povos africanos por liberdade, soberania e reconhecimento. Para a historiadora e professora Patrícia Teixeira Santos, titular em História da África na Universidade Federal de São Paulo, a data convida a humanidade a recordar não apenas a violência da escravidão e do colonialismo, mas também a força, a esperança e a resistência dos povos africanos.

“Hoje, 25 de maio, é o Dia da África. Essa reflexão tão importante nos faz recordar a luta, a força e a esperança dos povos africanos pela sua liberdade, lidando com forças muito desiguais, mas fazendo com que a vida prospere através de suas histórias, culturas e aprendizados”, afirmou a professora.

Patrícia ressalta que o continente africano não pode ser visto apenas pela ótica da exploração. Para ela, a África ocupa um lugar central na construção da humanidade e no futuro civilizatório. Nesse sentido, o pedido de perdão do papa ocorre em um momento que exige uma mudança profunda na forma como o mundo se relaciona com a história africana e com suas populações.

“É urgente que a humanidade transforme essa visão de exploração de um continente que é base para a construção da nossa humanidade e para o nosso futuro civilizatório”, destacou.

Na encíclica, Leão XIV também relaciona o passado escravista a formas contemporâneas de exploração. O texto aborda os desafios de proteger a dignidade humana em uma era marcada pela crescente dependência da inteligência artificial e por novas formas de colonialismo econômico e tecnológico, como o trabalho não regulamentado ligado à extração de minerais raros utilizados na produção de chips e equipamentos digitais.

Ao fazer essa aproximação entre passado e presente, o papa amplia o debate sobre a escravidão para além da memória histórica. A encíclica chama atenção para a permanência de estruturas de desigualdade que continuam afetando populações pobres, racializadas e historicamente exploradas.

Para Patrícia Teixeira Santos, o reconhecimento feito por Leão XIV responde a uma lacuna antiga. Ela lembra que a Igreja Católica, ao longo dos séculos, produziu documentos contra a escravidão e, especialmente no século XIX, também incentivou a abolição. No entanto, segundo a historiadora, ainda faltava um pronunciamento explícito sobre o envolvimento da própria Igreja com o passado escravista.

“Já ocorreram ao longo da história da Igreja cartas, documentos e encíclicas falando da escravidão, inclusive incentivando a abolição da escravatura. Mas também houve documentos que trataram da colonização como se ela fosse uma forma de levar civilização à África”, explicou.

A professora observa que, com o passar do tempo, a Igreja passou a reconhecer de maneira mais crítica os impactos da colonização da África e da Ásia. Para ela, tornou-se evidente que esse processo esteve ligado à exploração e ao enriquecimento dos países mais poderosos em detrimento das populações colonizadas.

“A Igreja acompanha os tempos e percebeu que a colonização da África e da Ásia no século XIX foi motivada pela exploração e pelo enriquecimento dos países mais ricos do mundo em detrimento dos mais pobres. A partir disso, passou a fazer sua crítica e condenação a essas formas de exploração”, afirmou.

É nesse contexto que Patrícia considera o pronunciamento de Leão XIV um marco. Segundo ela, o pedido de perdão possui um alcance que ultrapassa os limites da Igreja Católica, porque dialoga com africanos, afrodescendentes, católicos e não católicos em diferentes partes do mundo.

“Faltava explicitamente um pronunciamento da Igreja com relação ao passado escravista e ao envolvimento dela com esse passado. O papa Leão XIV faz esse pronunciamento no Dia da África. Para todos nós, católicos e não católicos, isso tem um papel profundamente transformador”, avaliou.

A historiadora afirma ter recebido a notícia com emoção, sobretudo pelo significado que esse reconhecimento pode ter para as populações afrodescendentes das Américas, da Ásia e para os povos africanos. Para ela, o gesto do Papa abre espaço para avanços concretos na luta contra o racismo e contra as desigualdades herdadas da escravidão e do colonialismo.

“Eu fiquei bastante emocionada quando vi a notícia, porque sei o quanto isso significa para o mundo inteiro, para as populações afrodescendentes das Américas, para as populações afrodescendentes que vivem na Ásia e para os povos africanos”, disse.

Mais do que uma declaração simbólica, Patrícia entende que o pedido de perdão deve inspirar atitudes concretas no cotidiano.

“Nosso caminho é o caminho da fraternidade, da reivindicação justa, do dia a dia antirracista, do acolhimento nas nossas paróquias e comunidades da população afrodescendente, irmãos e irmãs nossos”, afirmou.

Para a professora, o gesto de Leão XIV também fortalece a esperança de construção de um novo mundo. Essa transformação, segundo ela, deve se apoiar na memória das lutas africanas contra o colonialismo e a opressão, mas também na responsabilidade das sociedades atuais diante das marcas ainda presentes da escravidão.

“É um dia de esperança, de transformação, um dia que nos aponta para um novo mundo. E esse novo mundo é possível de construir, porque os povos africanos lutaram contra o colonialismo e contra a opressão em condições extremamente adversas”, declarou.

Patrícia Teixeira Santos é professora titular em História da África no Departamento de História da Universidade Federal de São Paulo. Graduada em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, possui mestrado e doutorado em História pela Universidade Federal Fluminense. Desde 2007, atua como docente da Unifesp e integra o Programa de Pós-Graduação em História da instituição.

Com ampla atuação acadêmica internacional, foi pesquisadora visitante da Università degli Studi di Padova, na Itália, além de colaborar com instituições de pesquisa na França, em Portugal e na Índia. Seus estudos concentram-se em historiografia africana, resistências anticoloniais, religião e sociedades africanas contemporâneas. Foi assessora convidada da Pastoral Afro-Brasileira da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de 2022 a 2026.

Ao pedir perdão em nome da Igreja, Leão XIV coloca a memória da escravidão no centro de uma reflexão sobre dignidade humana, justiça histórica e responsabilidade institucional. Para Patrícia, esse reconhecimento deve impulsionar uma mudança coletiva, capaz de enfrentar o racismo e superar aquilo que ela define como uma das maiores tragédias da humanidade.

“Que essa carta e esse pronunciamento do papa Leão XIV nos conduzam à libertação da maior chaga da humanidade, que foi a nossa conivência planetária com o pior crime que essa humanidade já cometeu: a escravidão. Nossa semana começa recheada de esperança”, concluiu.

Fonte: Diocese de Cachoeiro

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